23 de maio de 2012

Sol viaja lento demais pela galáxia para causar onda de choque



Sol viaja lento demais pela galáxia para causar onda de choque
Décadas de pesquisas terão que ser refeitas, porque todos os cálculos incluíam uma onda de choque que agora se descobriu que não existe.[Imagem: SRI]
Sol lento
A onda de choque espacial, que os cientistas acreditavam existir na fronteira entre o Sistema Solar e o espaço interestelar, não existe.
E não existe porque o Sol se move através da galáxia a uma velocidade menor do que havia sido calculado, com uma interação mais fraca com o resto da galáxia.
A conclusão veio da análise detalhada dos dados da sonda espacial IBEX (Interstellar Boundary Explorer), lançada pela NASA em 2008 justamente para estudar nossos limites interestelares.
Marola cósmica
Nosso Sistema Solar viaja através da galáxia no interior de uma espécie de casulo, a heliosfera, uma "bolha" formada por campos magnéticos e pelo vento solar.
O limite da heliosfera, onde o vento solar interage com o resto da galáxia, marca a fronteira do Sistema Solar.
As teorias indicavam que essa interação causava uma onda de choque, semelhante ao chamado "boom sônico", que ocorre aqui na Terra quando um avião ultrapassa a velocidade do som.
Mas os novos dados indicam que o Sistema Solar não faz mais do que uma "marola" no resto da galáxia - uma espécie de onda de proa, aquela que se pode ver à frente de um navio que avança pelo mar.
Sol viaja lento demais pela galáxia para causar onda de choque
Ondas de choque já foram documentadas em outras estrelas, mas nosso Sol viaja pela galáxia a uma velocidade lenta demais, causando apenas uma onda de proa. [Imagem: NASA/ESA/JPL-Caltech/Goddard/SwRI]
Velocidade do Sol
Os dados indicam que o Sistema Solar viaja pela galáxia a uma velocidade de 83.680 km/h, "lento" demais para criar uma onda de choque.
"Embora ondas de choque certamente existam à frente de muitas outras estrelas, nós descobrimos que a interação do nosso Sol não atinge o limite crítico para formar um choque. Assim, uma onda de proa é uma descrição mais precisa do que está acontecendo à frente da nossa heliosfera," disse David McComas, líder do estudo.
Os dados indicam ainda que a pressão magnética do meio interestelar é mais forte do que se calculava, o que exige velocidades ainda maiores para gerar uma onda de choque.
De volta à prancheta
"É muito cedo para dizer exatamente o que esses novos dados significam para a nossa teoria da heliosfera. Décadas de pesquisas exploraram cenários que incluíam uma onda de choque. Todas essas pesquisas agora terão que ser refeitas com os novos dados," disse McComas.
Haverá certamente implicações, por exemplo, para a forma como se calcula a propagação dos raios cósmicos galácticos e como eles entram no Sistema Solar, um tema de muito interesse para as viagens espaciais.
Bibliografia:

The Heliosphere’s Interstellar Interaction: No Bow Shock
D. J. McComas, D. Alexashov, M. Bzowski, H. Fahr, J. Heerikhuisen, V. Izmodenov, M. A. Lee, E. Möbius, N. Pogorelov, N. A. Schwadron, G. P. Zank
Science
DOI: 10.1126/science.1221054

Nave Dragon pronta para primeira missão à Estação Espacial



Nave privada Dragon pronta para primeira missão à Estação Espacial
A cápsula voará sem tripulantes, levando apenas cargas e equipamentos. [Imagem: SpaceX]
Sem atraso
Está tudo pronto para o primeiro voo espacial privado para a Estação Espacial Internacional.
A empresa SpaceX vai inaugurar os Serviços de Transportes Orbitais Comerciais (COTS), patrocinados pela NASA.
O programa tem como objetivo criar uma opção norte-americana para voltar ao espaço. Hoje o país é totalmente dependendo da Rússia e de suas naves Soyuz para ir à Estação Espacial.
O lançamento do foguete Falcon 9, levando a nave Dragon, está previsto para a madrugada do próximo sábado, dia 19, às 04h55, no horário local, naquilo que os engenheiros da NASA chamam de uma "janela instantânea": se não for realizado exatamente no horário previsto, o lançamento terá que ser adiado.
A cápsula voará sem tripulantes, levando apenas cargas e equipamentos.
Este primeiro voo privado à Estação Espacial estava previsto para Dezembro do ano passado, mas sofreu sucessivos adiamentos.
Ajuda robótica
Durante o voo, a cápsula Dragon irá realizar uma série de procedimentos de checagem para testar seus sistemas, incluindo a capacidade de aproximação e atracação com a Estação Espacial.
Os principais objetivos dessa primeira missão incluem um sobrevoo da Estação Espacial, a uma distância de aproximadamente 1,5 quilômetro, para validar a operação dos sensores e sistemas de voo necessários para uma aproximação e atracação seguras.
A nave também deverá demonstrar a capacidade de abortar o procedimento de aproximação.
Somente depois de tudo verificado, a Dragon receberá sinal verde para se atracar com a Estação Espacial.
Nave privada Dragon pronta para primeira missão à Estação Espacial
Ao contrário das naves Soyuz, a Dragon não se atracará automaticamente: ele será capturada por um dos braços robóticos da Estação, e colocada gentilmente no módulo Harmonia. [Imagem: SpaceX]
Ao contrário das naves Soyuz, a Dragon não se atracará automaticamente: ela será capturada por um dos braços robóticos da Estação, e colocada gentilmente no módulo Harmonia.
Ao final da missão, três semanas mais tarde, a tripulação irá inverter o processo, retirando a nave da Estação e liberando-a no espaço, para que ela possa retornar à Terra e descer de paraquedas no oceano, onde será recuperada.
Carga ou passageiros
A cápsula Dragon foi projetada em duas configurações, uma para levar carga e outra para levar passageiros.
No primeiro caso, são até 6 toneladas de carga, dispostos em dois compartimentos, um pressurizado, com 10 metros cúbicos (m3) e outro não pressurizado, com 14 m3.
No modo com passageiros, a capacidade é para até 7 astronautas.
Para garantir uma transição rápida de carga para tripulação, as duas versões são quase idênticas, com exceção do sistema de escape da tripulação, sistema de suporte de vida e controles internos que permitem à tripulação assumir o controle do computador de voo quando necessário.
Isso permitirá também que os sistemas críticos para a segurança de voo sejam totalmente testados em missões de demonstração não tripuladas.
A nave possui um sistema de controle com 18 propulsores, utilizados para controle de atitude e manobras orbitais. Eles contam com um tanque com 1.290 kg de propelente.

Sacolinhas biodegradáveis não se biodegradam como esperado


Teste aleatório
O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo realizou um estudo para verificar a capacidade de biodegradação de quatro diferentes tipos de sacolas plásticas de supermercado.
Algumas dessas sacolas são vendidas em supermercados como sendo "degradáveis" ou "biodegradáveis".
Os testes mostram a porcentagem que cada material biodegradou durante um período de 28 dias.
O teste não pode ser conclusivo em relação a todas as opções no mercado porque as quatro sacolas testadas foram escolhidas aleatoriamente por uma emissora de televisão, que encomendou o teste.
Além de existem centenas de fabricantes no mercado, com produtos diferenciados, a avaliação contou com apenas uma amostra de cada uma das sacolinhas.
Está em andamento no instituto um teste de longo prazo das sacolinhas, com uma amostra mais criteriosa:
  • Quanto tempo uma sacola de supermercado leva para se decompor?
Medição da biodegradabilidade
O teste consistiu em mergulhar os diferentes tipos de embalagens em uma solução mineral, para que elas sejam consumidas por microrganismos naturais, retirados da natureza (solo, lago, lodo), simulando com maior intensidade o que pode acontecer no meio ambiente.
Assim, as sacolinhas são a única substancia orgânica fonte de alimento para essas bactérias.
Os resultados de biodegradação foram os seguintes, para o período de teste avaliado (28 dias):
  • sacola de papel - 40%;
  • sacolinha de plástico comum - 30%;
  • sacola de amido de milho - 15%;
  • sacola oxidegradável (que recebem aditivos para se degradarem mais rápido) - 2%.
A margem de erro do teste é de 10%.
Biodegradação difícil
Segundo o IPT, de modo geral, nenhuma das sacolinhas analisadas pode ser considerada como de fácil biodegradação, isto é, não serão degradadas rapidamente na natureza.
Segundo as normas técnicas, biodegradável é todo material cujo conteúdo orgânico se transforma em água e gás carbônico (mínimo 60%), em até 28 dias.
A biodegradação leva à formação de dióxido de carbono (CO2), água e biomassa. A porcentagem de CO2 gerado pelo material estudado, em relação ao total de CO2 teoricamente esperado para a completa oxidação do conteúdo de carbono da amostra (CO2 - teórico), informa se a sacola é biodegradável ou biorresistente, determinada nessa metodologia por 28 dias.
Material compostável, por sua vez, é o material que se biodegrada e gera húmus com ausência de metais pesados e substâncias nocivas ao meio ambiente, permitindo a germinação e o desenvolvimento normal de plantas.
Composição química das sacolinhas
O IPT analisou também a composição química das quatro sacolas plásticas avaliadas.
Por meio desta técnica, foi identificado que as sacolas "oxidegradável" e "convencional" são constituídas de polietileno, um dos plásticos mais comuns em vários tipos de aplicação.
Na sacola de "amido" foi identificada a presença de um constituinte polimérico quimicamente diferente das outras duas citadas, um polímero do tipo poliéster, que inclui produtos químicos presentes nas plantas.
Segundo o IPT, ainda não é possível avaliar a origem do material polimérico, se ele é proveniente de uma fonte renovável ou não.
Além disso, as técnicas empregadas não permitem identificar a presença de possíveis aditivos nas sacolas, como os oxidegradáveis.

Segredos da primeira folha artificial prática



Segredos da primeira folha artificial prática
Ela não é verde, mas é a primeira folha artificial a imitar a fotossíntese de forma simples e barata, embora ainda tenha uma eficiência baixa. [Imagem: Daniel Nocera/ACS]
Fotossíntese artificial
Há cerca de um ano, a equipe do professor Daniel Nocera, do MIT, anunciou os primeiros resultados daquilo que ele chamou de uma folha artificial prática.
Agora, depois de o trabalho ter sido revisado por outros cientistas, finalmente foi publicada a descrição detalhada do dispositivo.
A ideia das folhas artificiais é imitar o processo da fotossíntese, gerando energia, ou combustível, diretamente a partir da luz do Sol - uma ideia que foi defendida pela primeira vez em 1912, pelo químico italiano Giacomo Ciamician.
Atingindo-se um rendimento mínimo, isto representaria uma revolução na matriz energética mundial.
Existem várias pesquisas na área, com várias abordagens diferentes, mas todas em um estágio ainda bastante inicial de desenvolvimento.
Quebra da água em hidrogênio e oxigênio
A grande vantagem do dispositivo agora divulgado é que, ao contrário dos anteriores, ele se baseia em técnicas de baixo custo para a sua fabricação e dispensou a platina, um dos elementos mais caros usados nas folhas artificiais.
No processo de imitar a fotossíntese, o passo mais importante é a etapa que divide a água em hidrogênio e oxigênio.
A folha artificial possui um coletor solar ensanduichado entre duas películas, que geram a reação necessário para liberar o oxigênio e o hidrogênio.
Quando mergulhado em um frasco com água, à luz do sol, o dispositivo começa a borbulhar, liberando os dois gases: o hidrogênio pode então ser usado em células a combustível para gerar eletricidade.
Um gerador assim integrado, consistindo em uma peça única, é um conceito atraente porque pode ser facilmente deslocado para gerar energia em lugares remotos, eventualmente entrando no mercado em nichos como recarregadores de baterias ou em substituição aos painéis solares.
Segredos da primeira folha artificial prática
O silício da célula solar precisa ser protegido da água, e isto é feito, entre outras complicações, usando ITO, o óxido de índio dopado com estanho, o mesmo condutor transparente usado nas telas sensíveis ao toque. [Imagem: Daniel Nocera/ACS]
Dispensando a platina
Até agora, porém, todos os protótipos acenam com custos proibitivos, porque dependem de catalisadores de metais nobres, como a platina, e processos de fabricação ainda não desenvolvidos para escala industrial.
A equipe do professor Nocera encontrou uma forma de substituir a platina por um composto de níquel, molibdênio e zinco (NiMoZn), que é bem mais barato.
No outro lado da folha, para gerar o oxigênio, é usada uma película de cobalto.
Na folha artificial, a membrana fotossintética é substituída por uma junção de silício, uma célula solar, que captura a luz e gera a corrente elétrica na forma de pares elétrons-lacunas.
Na fotossíntese artificial, a enzima básica do complexo de quebra da molécula da água é substituída pelos catalisadores de cobalto e NiMoZn.
Prática, mas ainda não viável
Mas ainda há desafios a vencer antes que a "folha artificial prática" do professor Nocera seja viável.
O silício da célula solar precisa ser protegido da água, e isto é feito, entre outras complicações, usando ITO, o óxido de índio dopado com estanho, o mesmo condutor transparente usado nas telas sensíveis ao toque.
E o ITO não é um material barato e nem largamente disponível.
O segundo degrau a ser vencido é o rendimento: do protótipo tem uma eficiência de 6,2%, o que é muito menos do que as células solares oferecem.
Assim, por enquanto, seria mais prático usar as células solares para produzir eletricidade - a um rendimento médio de 20% - e usar essa eletricidade para fazer a eletrólise da água, liberando igualmente o oxigênio e o hidrogênio.
Mas nenhuma tecnologia nasceu pronta e super eficiente, o que justifica a crença de alguns cientistas de que o futuro energético do planeta está nas folhas artificiais.
Bibliografia:

The Artificial Leaf
Daniel G. Nocera
Accounts of Chemical Research
Vol.: 45 (5), pp 767-776
DOI: 10.1021/ar2003013

Peixe-robô chama a atenção para a poluição das águas



Peixe-robô chama a atenção para a poluição das águas
Projetado para monitoramento da qualidade das águas, o robô se diferencia dos inúmeros outros projetos de peixes-robôs por um sistema de propulsão oscilante. [Imagem: BMT Group]
Movimento oscilante
Pesquisadores lançaram às águas um peixe-robô amarelo que realmente é capaz de chamar a atenção.
Projetado para monitoramento da qualidade das águas, o robô se diferencia dos inúmeros outrosprojetos de peixes-robôs e dos robôs submarinos por um sistema de propulsão por braço oscilante.
Embora tente imitar um peixe, os animais têm um sistema de locomoção bem mais complexo, que inclui a oscilação de todo o corpo, coordenada com o movimento das barbatanas.
A propulsão do novo robô está para o nadar de um peixe assim como o voo de um pássaro está para o voo de um avião.
Contudo, simulações em computador têm mostrado que projetos mais avançados de peixes-robôs podem ser altamente eficientes, levando alguns cientistas a falarem em substituir as hélices na propulsão de navios.
Projetos alternativos
Luke Speller, um dos criadores do peixe-robô amarelo, afirmou que um dos objetivos dos testes, que está sendo realizado no norte da Espanha, é refinar o projeto, com vistas a comercializá-lo para o monitoramento ambiental.
Já existem robôs monitorando todos os oceanos da Terra desde 2008, mas todos usam sistemas mais simples e mais eficientes de locomoção, sobretudo porque um monitoramento mais eficiente exige que o robô mergulhe continuamente, para coletar dados a várias profundidades.
Peixe-robô chama a atenção para a poluição das águas
Embora não tenha um sistema de propulsão eficiente, o peixe-robô pode encontrar seus próprios nichos de aplicação. [Imagem: BBC]
Mas parece haver espaço para projetos diferenciados: há poucos dias, robôs movidos por ondas bateram o recorde mundial de distância para robôs autônomos flutuantes.
E seu objetivo também é o monitoramento ambiental.
Cada um na sua
O robô-peixe amarelo pode até perder em eficiência na conversão de energia - a carga de suas baterias não dura mais do que oito horas - mas tem grande apelo de mídia.
Assim, ele pode encontrar seu nicho de aplicação na divulgação da robótica, em atrações turísticas, ou em "iniciativas ambientais" onde o marketing seja mais importante do que o meio ambiente em si, como ocorre nos "projetos de sustentabilidade" de várias empresas.
Por detrás das cortinas, ou sob as águas, o trabalho sério poderia ser feito porenxames de robôs flutuantes, capazes de coletar dados continuamente em águas rasas ou até mesmo na correnteza de rios.

Hidrogênio faz metal virar isolante



Hidrogênio faz metal virar isolante
Eletrodos de ouro são usados para monitorar com precisão a estranha alteração de fase do óxido de vanádio, que é tanto estrutural quanto eletrônica.[Imagem: Jiang Wei/Rice University]
Transição metal-isolante
O óxido de vanádio é um material estranho: como metal, ele é um condutor térmico e elétrico.
Mas aqueça-o a meros 67 ºC e, em um trilionésimo de segundo, ele passa a ser um isolante.
Isso tem inúmeras aplicações práticas, como janelas sensíveis à temperatura, que absorvem a energia no Sol nos dias frios, e a refletem nos dias de calor.
Ou vidros inteligentes que simplesmente deixam passar a luz e bloqueiam o calor.
Alguns pesquisadores estão também usando o óxido de vanádio para desenvolver chaves ópticas para incorporação em circuitos eletrônicos, no campo da chamada optoeletrônica.
Agora, esse "material bipolar" poderá encontrar ainda mais utilidades, uma vez que cientistas descobriram uma forma não apenas de baixar a temperatura dessa transição metal-isolante, mas também de torná-la totalmente reversível.
Dopagem reversível
A técnica de "dopagem reversível" é feita com a mera adição do gás hidrogênio.
"Se adicionamos pouco hidrogênio, a transição de fase acontece a uma temperatura ligeiramente mais baixa, e a fase isolante se torna mais condutora. Se o hidrogênio for acrescentado em quantidade suficiente, a transição para a fase isolante desaparece completamente," explica Douglas Natelson, da Universidade Rice, nos Estados Unidos.
"No lado prático, há várias aplicações para isso, como sensores ultrassensíveis de hidrogênio", diz o pesquisador. "Mas a compensação mais imediata será nos ajudar a entender melhor a física envolvida na transição de fase do VO2."
De fato, os modelos atuais não conseguem explicar o que acontece na rede atômica desse dióxido.
Transição de fase do dióxido de vanádio
Quando o oxigênio reage com o vanádio para formar o VO2, os átomos formam cristais que se parecem com longos caixotes retangulares. Os átomos de vanádio alinham-se ao longo das quatro bordas do caixote, em linhas regularmente espaçadas.
Um único cristal de VO2 pode ter várias dessas caixas alinhadas lado a lado. Nessa estrutura, esses cristais conduzem eletricidade como se fossem fios.
Mas tudo muda aos 67 ºC.
"Estruturalmente, os átomos de vanádio emparelham-se, e cada par fica ligeiramente inclinado, de forma que você não tem mais essas longas cadeias. Quando a fase muda, com a ocorrência desses emparelhamentos, o material passa de um condutor elétrico para um isolante elétrico," explica Natelson.
Ou seja, ocorre uma transição de fase que é tanto estrutural, quanto eletrônica.
Quando entenderem totalmente esse processo, os pesquisadores poderão ajustá-lo ou controlá-lo de forma mais precisa, levando o óxido de vanádio para aplicações mais nobres.
Isso agora poderá ser feito com muito mais rapidez e precisão com a possibilidade de reverter a transição de fase à vontade, com a simples adição de hidrogênio.
Bibliografia:

Hydrogen stabilization of metallic vanadium dioxide in single-crystal nanobeams
Jiang Wei, Heng Ji, Wenhua Guo, Andriy H. Nevidomskyy, Douglas Natelson
Nature Nanotechnology
Vol.: Published online
DOI: 10.1038/nnano.2012.70

Antimagneto: Invisibilidade magnética prática e simples



Antimagneto: Invisbilidade magnética prática e simples
Um objeto colocado no interior do cilindro, além do próprio cilindro, são magneticamente indetectáveis. [Imagem: J. Prat-Camps/C. Navau/A. Sanchez]




Cientistas criaram uma camuflagem magnética extremamente simples, e que foge da linha tradicional das pesquisas na área, que vinha se baseando exclusivamente nos metamateriais.
O dispositivo, que fica totalmente invisível a um campo magnético, foi fabricado com materiais comprados no comércio, o que aponta para aplicações práticas a curto prazo.
Além dos metamateriais
A ciência dos dispositivos de camuflagem, ou mantos da invisibilidade nasceu como uma curiosidade teórica há poucos anos, mas migrou rapidamente para os laboratórios, e vem atiçando a curiosidade do público e dos cientistas.
No ano passado, Alvaro Sanchez e seus colegas da Universidade Autônoma de Barcelona publicaram um artigo no qual demonstravam toda a teoria necessária para construir a camuflagem magnética, ou antimagneto, como eles chamavam o aparato.
Com suas equações embaixo do braço, os teóricos espanhóis contataram experimentalistas da Academia Eslovaca de Ciências, especialistas em medições muito precisas de campos magnéticos.
Fedor Gomory e seus colegas demoraram apenas alguns poucos meses para demonstrar o antimagneto na prática e confirmar as teorias do grupo espanhol.
O resultado é um desvio inesperado na área, mostrando que os metamateriais não são essenciais para criar invisibilidades.
Antimagneto
O manto da invisibilidade magnética, ou camuflagem magnética, consiste de um cilindro composto de duas camadas concêntricas.
A camada interna é um material supercondutor, que repele o campo magnético, enquanto a camada exterior é composta de um material ferromagnético - uma liga de ferro, níquel e cromo -, que atrai o campo magnético.
A camada supercondutora do cilindro impede que o campo magnético alcance o interior da camuflagem, mas distorce as linhas do campo ao seu redor.
A camada ferromagnética interna produz o efeito oposto: ela atrai as linhas do campo magnético, compensando a distorção criada pelo supercondutor, mas sem permitir que o campo magnético entre no interior do cilindro.
Antimagneto: Invisibilidade magnética prática e simples
A camada ferromagnética do cilindro atrai as linhas do campo magnético (esquerda), enquanto a camada supercondutora os repele (direita). [Imagem: J. Prat-Camps/C. Navau/A. Sanchez]
O efeito global é um espaço interno do cilindro sem nenhum campo magnético, e absolutamente nenhuma distorção no campo magnético externo.
Em outras palavras, não é possível detectar nem o cilindro e nem o objeto que for colocado em seu interior.
Aplicações médicas
Como o dispositivo foi fabricado com materiais disponíveis no comércio - o experimento inteiro custou US$1.300,00 -, e como ele opera em campos magnéticos relativamente fortes, os cientistas afirmam que ele poderá ser prontamente usado na prática.
Vale lembrar que, como usa um supercondutor, o dispositivo precisa de nitrogênio líquido para funcionar - mas equipamentos de imageamento médico também precisam.
Os cientistas citam como possibilidade de aplicação prática, por exemplo, um dispositivo que torne marca-passos e outros implantes médicos invisíveis aos campos magnéticos, permitindo que pacientes portadores desses implantes possam usufruir dos exames mais modernos, como a ressonância magnética.
Por outro lado, é fácil também imaginar aparatos não tão bem intencionados, como um antimagneto para esconder armas dos detectores magnéticos dos aeroportos. Mas, além de ainda ser impensável esconder um dispositivo criogênico com as dimensões necessárias, os aeroportos contam com outros mecanismos de checagem, como máquinas de raios X.
Cancelar o magnetismo
Os cientistas estão perfeitamente familiarizados com o processo de "criar" magnetismo - 99% da energia consumida no mundo usa geradores baseados no magnetismo, o fenômeno está presente em todos os motores elétricos e é a base de todo o armazenamento digital de dados.
Mas cancelar o magnetismo tem-se mostrado um desafio tanto científico quanto tecnológico.
Esta nova camuflagem magnética abre o caminho para que isso possa ser feito de maneira muito flexível, incluindo outras aplicações na tecnologia da informação, como a blindagem de dados armazenados magneticamente.
Bibliografia:

Experimental Realization of a Magnetic Cloak
Fedor Gomory, Mykola Solovyov, Ján Souc, Carles Navau, Jordi Prat-Camps, Alvaro Sanchez
Science
Vol.: 335 - pp. 1466-1467
DOI: 10.1126/science.1218316

Quer ser um projetista de chips?






Curso de Formação de Projetistas de Chips
Que tal se habilitar para desenvolver circuitos integrados e concorrer a empregos que pagam até R$6.500,00 para projetistas juniores?
O caminho pode estar no "Curso de Formação de Projetistas de Chips", que está com inscrições abertas até o dia 17/06/2012.
O curso é uma iniciativa do Programa CI-Brasil uma ação conjunta do governo federal, universidades e empresas para desenvolver a indústria de microeletrônica no país.
Os candidatos deverão ter graduação completa em Engenharia da Computação, Eletrônica, Elétrica, Informática ou cursos afins.
Chips e cifrões
O programa contará com 15 instrutores certificados nos Estados Unidos e oferecerá bolsa de R$ 2.000,00 durante os 12 meses do curso.
Além das aulas teóricas sobre as tecnologias mais atuais do setor, haverá aulas práticas em laboratório com ferramentas comerciais.
Segundo o CI-Brasil, os salários iniciais para um projetista de chip no Brasil variam de R$3.000,00 a R$6.500,00 para projetistas juniores, podendo chegar a R$14.000,00 para projetistas experientes.

SpaceX inaugura exploração espacial privada



SpaceX inaugura exploração espacial privada
Neste primeiro voo de testes, a cápsula está voando sem tripulantes, levando apenas cargas e equipamentos. [Imagem: NASA]




Espaço privado
A empresa SpaceX lançou seu foguete Falcon 9 ao espaço na madrugada desta terça-feira, inaugurando a era da exploração espacial privada.
O foguete leva a bordo o módulo espacial Dragon, a única nave norte-americana capaz de levar astronautas ao espaço na atualidade.
Neste primeiro voo de testes, a cápsula está voando sem tripulantes, levando apenas cargas e equipamentos.
"Não é possível exagerar a significância deste dia. Embora ainda haja um bocado de trabalho à frente para completar essa missão com sucesso, nós fizemos um bom começo," comemorou Charles Bolden, o ex-astronauta que está coordenando o processo de privatização da NASA.
Nave reutilizável
Depois de uma série de procedimentos de checagem para testar seus sistemas, a Dragon deverá se aproximar da Estação Espacial Internacional nos próximos três dias, fazer um loop e se aproximar, para ser agarrada por dos braços robóticos da Estação.
Ao final da missão, três semanas mais tarde, a tripulação irá inverter o processo, retirando a nave da Estação e liberando-a no espaço, para que ela possa retornar à Terra e descer de paraquedas no oceano, onde será recuperada.

22 de maio de 2012

Metafluidos sólidos prometem revolucionar a acústica



Nova classe de materiais sintéticos permitirá manipulações inéditas dos sons
Os metamateriais pentamodo comportam-se como um líquido - são metafluidos - o que os torna ideais para manipulação das ondas de som. [Imagem: Kadic et al./KIT]




Acústica transformacional
Cientistas alemães criaram uma nova classe de materiais que poderá mudar a forma como interagimos com os sons, tanto com os agradáveis, como a música, quanto com os desagradáveis barulhos.
A criação desse material inédito inaugura um novo campo de pesquisas, a chamada acústica transformacional, assim como existe uma óptica transformacional, muito conhecida graças aos trabalhos recentes na área de mantos da invisibilidade.
Entre as primeiras aplicações do metafluido, afirmam os pesquisadores, será possível construir camuflagens acústicas, como locais totalmente à prova de som, prismas acústicos e, sobretudo, conceitos totalmente novos no campo dos alto-falantes e da sonorização em geral.
Metafluido pentamodo
Para começar, é melhor se acostumar com o som do nome da "coisa": os cientistas criaram um metafluido cristalino estável feito de metamateriais pentamodo.
Não é tão complicado quanto parece.
O material se comporta com um fluido ideal, mas é sólido e estável - e isto explica toda a primeira parte do nome.
Ele foi feito com os já bem conhecidos metamateriais, aqueles dos mantos da invisibilidade.
A grande novidade é o pentamodo - mas isto já exige alguma introdução.
Esta nova classe de materiais, chamados pentamodos, foi prevista na teoria por Graeme Milton e Andrej Cherkaev, em 1995.
Mas poucos acreditavam que eles pudessem ser sintetizados na prática.
O Dr. Muamer Kadic e seus colegas do Instituto Karlsruhe de Tecnologia foram buscar a ponte sobre o Rubicão, segundo ele - uma referência à travessia histórica de Júlio César sobre esse rio - nos mesmos metamateriais que estão sendo usados para criar, além dos mantos de invisibilidade, camuflagens acústicasescudos aquáticos e até proteções contra tsunamis.
Nova classe de materiais sintéticos permitirá manipulações inéditas dos sons
"Construir um metamaterial pentamodo é quase tão difícil quanto tentar construir um andaime de alfinetes que só podem se tocar em suas pontas," [Imagem: Kadic et al./KIT]
"Construir um metamaterial pentamodo é quase tão difícil quanto tentar construir um andaime de alfinetes que só podem se tocar em suas pontas," afirmou o pesquisador.
Ele não usou alfinetes, mas um polímero, manipulado em nanoescala para formar cadeias moleculares com o formato de um charuto.
O comportamento e as propriedades mecânicas do material final dependem inteiramente do tamanho dos nanocharutos e do ângulo no qual suas extremidades se tocam para formar a estrutura.
Acústica transformacional
Como, para ter utilidade prática, a estrutura deve ter a maior dimensão possível, o material acaba tendo a textura de um aerogel, altamente poroso - o polímero propriamente dito responde por menos de 1% da massa total.
"Para obter resultados 3D similares, como na óptica transformacional, a acústica transformacional depende exclusivamente dos metamateriais. Em vista disso, esse primeiro protótipo do nosso metamaterial pentamodo é um sucesso muito significativo," acrescentou Tiemo Bückmann, membro da equipe e quem teve a paciência de empilhar os "nanocharutos poliméricos".
Ele contou com a ajuda de uma técnica recente de nanoconstrução, chamada litografia a laser tridimensional, criada no mesmo instituto por Martin Wegener, que a tem usado em diversos feitos recentes no campo dos metamateriais ópticos, incluindo o primeiro manto da invisibilidade para luz visível e um escudo acústico.
Ou seja, com essa realização, será necessário passar a distinguir entre metamateriais ópticos e metamateriais acústicos.
Contudo, o conceito de um material pentamodo vai muito além, e poderão surgir novos usos e aplicações agora que se demonstrou que eles podem ser fabricados na prática.
Nova classe de materiais sintéticos permitirá manipulações inéditas dos sons
À esquerda o material pentamodo ideal previsto pelos teóricos. À direita, como os cientistas alemães sintetizaram seu metamaterial. [Imagem: Kadic et al./KIT]
O que são pentamodos?
O comportamento mecânico dos materiais - imagine o ferro e a água, como exemplos - é expresso em termos de parâmetros de compressão e de cisalhamento.
O fato de que é extremamente difícil comprimir a água no interior de um cilindro é descrito através do seu parâmetro de compressão.
Por outro lado, o fato de que a água pode ser agitada em todas as direções, simplesmente mergulhando e mexendo a mão em seu interior, é expresso através de parâmetros de corte, ou cisalhamento.
No caso da água, os cinco parâmetros de cisalhamento - daí o prefixo penta - igualam a zero, e apenas um parâmetro, a compressão, é diferente de zero.
Mas, no caso do ferro, você não vai conseguir mergulhar a mão em seu interior e agitá-lo, isto é, cortá-lo requer forças significativas. Assim, vários de seus parâmetros serão diferentes de zero.
Em termos de parâmetros, o estado ideal de um metamaterial pentamodo corresponde ao estado da água - é por isso que esse material é chamado de metafluido.
Teoricamente, pode-se obter qualquer propriedade mecânica concebível em um material apenas fazendo variar os parâmetros relevantes.
Construir o novo material é outra história, embora o feito agora demonstrado pelos pesquisadores alemães comprove que fazer andaimes de alfinetes pode não ser tão difícil assim.
Bibliografia:

On the practicability of pentamode mechanical metamaterials
Muamer Kadic, Tiemo Buckmann, Nicolas Stenger, Michael Thiel, Martin Wegener
Applied Physics Letters
Vol.: 100 (19): 191901
DOI: 10.1063/1.4709436
http://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1203/1203.1481.pdf
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Espião invisível: camuflagem permite ver sem ser visto



Espião invisível: camuflagem permite ver sem ser visto
Ao contrário do que possa parecer, as áreas em amarelo brilhante representam a luz refletida pelo silício. As áreas escuras estão revestidas com ouro, tendo tornado-se "invisíveis" devido à interferência destrutiva das ondas plasmônicas. [Imagem: Stanford Nanocharacterization Lab]
Camuflagem plasmônica
Engenheiros usaram a camuflagem plasmônica - uma das técnicas usadas para criar os mantos de invisibilidade - para criar um dispositivo que consegue ver sem ser visto.
O método mais tradicional para criar invisibilidade é usar estruturas físicas projetadas para interagir com os raios de luz - os metamateriais.
Na invisibilidade plasmônica, tira-se proveito dos plásmons de superfície, ondas de elétrons que se formam na superfície de metais a partir de sua interação com a luz.
Neste novo trabalho, realizado por uma equipe das universidades de Stanford e Pensilvânia, os pesquisadores usaram um truque que parece pouco intuitivo: uma cobertura de metal reflexivo que torna menos visível o material ao qual essa película brilhante é aplicada.
Fotodetector invisível
Embora a equipe chame seu experimento de "máquina invisível", o aparato consiste essencialmente de um nanofio de silício recoberto por uma fina camada de ouro - seria mais adequado chamá-lo de fotodetector invisível.
Ajustando a proporção entre ouro e silício, a equipe conseguiu fazer com que os raios de luz refletidos pelos dois materiais cancelem-se mutuamente, um fenômeno conhecido como interferência destrutiva e que foi usado recentemente para forçar a luz a fazer curvas.
Conforme as ondas de luz surfam sobre o metal e o semicondutor, elas criam uma separação de cargas positivas e negativas nos dois materiais - um`momento dipolar, em termos técnicos.
Espião invisível: camuflagem permite ver sem ser visto
Esta imagem do experimento real mostra que o rendimento é bom para uma primeira tentativa, mas que a "invisibilidade" não é total. [Imagem: Fan et al./Nature Photonics]
O pulo do gato consiste em criar um dipolo no ouro que seja igual em intensidade, mas oposto em sinal, ao dipolo no silício.
Quando dipolos positivos e negativos de igual intensidade se encontram, eles se anulam, e o sistema torna-se invisível.
"Descobrimos que um revestimento de ouro cuidadosamente projetado modifica drasticamente a resposta óptica do nanofio de silício," afirma Pengyu Fan, primeiro autor do artigo que descreve a descoberta. "A absorção da luz no fio cai ligeiramente - por um fator de apenas quatro -, mas a dispersão da luz cai 100 vezes devido ao efeito de camuflagem, tornando-se invisível."
Ou seja, o revestimento de ouro, que é normalmente altamente reflexivo, é a porção do nanofio que se torna invisível.
Espião invisível
Os experimentos mostraram que a invisibilidade plasmônica é eficaz em grande parte do espectro de luz visível e que o efeito funciona independentemente do ângulo de entrada da luz ou do formato e do posicionamento do nanofio.
O mecanismo também funciona com outros metais em lugar do ouro, como o alumínio e o cobre, com rendimento semelhante.
Segundo a equipe, esse espião invisível - ele detecta a luz do exterior, mas a luz que ele próprio emite não pode ser vista - poderá ter utilidade em áreas como células solares, sensores, LEDs, lasers semicondutores, entre outras.
Em câmeras digitais e sistemas avançados de imageamento médico, por exemplo, pixels camuflados plasmonicamente poderão reduzir o ruído entre pixels vizinhos, que geram imagens borradas.
"Nós podemos até mesmo imaginar a possibilidade de fazer uma reengenharia dos aparelhos optoeletrônicos para incorporar novas funções valiosas e para alcançar densidades de sensores que não são possíveis hoje," afirmou Mark Brongersma, coautor do estudo.
Bibliografia:

An invisible metal-semiconductor photodetector
Pengyu Fan, Uday K. Chettiar, Linyou Cao, Farzaneh Afshinmanesh, Nader Engheta, Mark L. Brongersma
Nature Photonics
Vol.: Published online
DOI: 10.1038/nphoton.2012.108

Cão de Pavlov eletrônico: computadores podem aprender



Cão de Pavlov eletrônico: computadores podem aprender
Os cientistas conseguiram ensinar os circuitos eletrônicos a memorizar reações. [Imagem: Hermann Kohlstedt]
Comportamento eletrônico
Os experimentos com cães do russo Ivan Pavlov estão para a psicologia assim como o lendário "experimento" de Newton com a maçã está para a física.
Até o início do século 20, a ciência assumia que os seres vivos agiam seguindo alguns reflexos instintivos inatos. Mas Pavlov demonstrou que era possível gerar reações sem o estímulo físico característico.
Ao tocar um sino antes de alimentar os cães, ele demonstrou que, após algum tempo, os cães salivavam apenas ao ouvir o toque da sineta, sem que houvesse nenhuma comida por perto.
A história parece estar se repetindo no campo da eletrônica.
Até há pouco tempo, considerava-se que os componentes eletrônicos, que formam os computadores e toda a parafernália tecnológica com a qual estamos acostumados, "agiam" apenas segundo a corrente elétrica que passava por eles.
Isso começou a mudar com a criação do memristor, uma memória resistiva, que se "lembra" da corrente elétrica que a percorreu anteriormente - por isso apelidado de "sinapse artificial".
Agora, cientistas da Universidade de Kiel, na Alemanha, construíram uma versão eletrônica do cão de Pavlov: essencialmente, um circuito que "aprende pela experiência".
"Nós usamos memristores a fim de imitar o comportamento associativo do cão de Pavlov na forma de um circuito eletrônico," resume o professor Hermann Kohlstedt, coordenador da equipe.
Aprendizado de máquina
Essencialmente, este experimento está para a computação assim como o experimento de Pavlov está para o comportamento humano, ou Newton e a maçã estão para a física.
Ocorre que as informações digitais e as informações biológicas são processadas seguindo princípios fundamentalmente diferentes.
É por isso que é tão difícil ensinar as coisas aos computadores e aos robôs: eles simplesmente não aprendem pela experiência.
Isso força os humanos a escrevem programas exaustivamente extensos, que devem prever cada situação que o equipamento irá encontrar, em detalhes, dizendo como ele deverá agir em resposta a cada uma dessas situações. Quando alguma coisa sai fora do script, o programa trava ou é encerrado abruptamente.
Assim, estamos longe de podermos falar sobre "processos cognitivos" de um computador ou de um robô.
A replicação do cão de Pavlov em escala eletrônica pode mudar tudo isso ao abrir, pela primeira vez, a possibilidade de se projetar circuitos eletrônicos que imitem o aprendizado animal.
Cognição eletrônica
Enquanto um resistor "reage" à corrente elétrica simplesmente impondo uma resistência à sua passagem, o memristor consegue se "lembrar" da última corrente que passou por ele porque ele altera sua própria resistência a cada passagem da energia.
Há tempos os cientistas sonham em usar esse efeito memória para criar circuitos similares às conexões existentes entre as sinapses cerebrais.
"No longo prazo, nosso objetivo é transferir a plasticidade sináptica para os circuitos eletrônicos. Nós poderemos até mesmo recriar eletronicamente as habilidades cognitivas," confirma Kohlstedt.
E o experimento do "cão de Pavlov eletrônico" é um marco no caminho em direção a esse objetivo.
Cão de Pavlov eletrônico: computadores podem aprender
O circuito eletrônico apresenta o comportamento clássico do condicionamento observado no campo da psicologia. [Imagem: Advanced Functional Materials]
Cão de Pavlov eletrônico
O experimento do cão de Pavlov eletrônico consistiu no seguinte: dois impulsos elétricos foram interligados a um comparador através de um memristor. Os dois impulsos representam a comida e o sino no experimento de Pavlov.
Um comparador é um dispositivo que compara duas tensões ou correntes e gera uma saída quando se atinge um determinado nível. Neste caso, quando o valor limite é atingido, o comparador produz o sinal de saída, representando a salivação do cão eletrônico.
Além disso, o elemento memristivo tem sua própria tensão limite, que é definida por propriedades físico-químicas estabelecidas na sua fabricação. Abaixo desse valor limite, o memresistor comporta-se como qualquer resistor comum. Acima do limite, surge seu efeito memória, mudando sua resistência.
Ao aplicar os dois impulsos elétricos simultaneamente, supera-se a tensão limite do memresistor, ativando-se sua memória.
Múltiplas repetições levam a um processo de aprendizado associativo no circuito - exatamente como no cão de Pavlov.
"Desse momento em diante, nós precisamos apenas aplicar o impulso elétrico 2 (equivalente ao sino) para que o comparador gere um sinal, equivalente à salivação," explica Martin Ziegler, responsável pelo experimento.
O impulso elétrico 1 (o alimento) continua produzindo a mesma reação que já produzia antes do aprendizado. Afinal, o cão sempre saliva na presença do alimento real.
Assim, o circuito eletrônico apresenta o comportamento clássico do condicionamento observado no campo da psicologia.
E, como se aprende, também se desaprende. Se o sino for tocado seguidamente sem que o cão receba comida, o condicionamento será rompido - no cão de Pavlov eletrônico, a não aplicação dos dois impulsos simultaneamente leva à perda do aprendizado do circuito eletrônico.
Computadores que aprendem
O que os pesquisadores planejam agora é construir comportamentos mais complexos, criando módulos de uma rede neural em hardware que de fato aprenda com os impulsos que receber.
Segundo eles, uma primeira aplicação prática estaria no reconhecimento de padrões, algo muito difícil de programar nos computadores atuais.
Mas, no longo prazo, a esperada criação de habilidades cognitivas em circuitos eletrônicos poderão criar computadores que não serão avaliados mais apenas pela velocidade com que conseguem realizar cálculos, mas pela sua capacidade de aprendizado.
O memristor, o componente eletrônico com memória, foi teorizado pelo cientista Leon Chua, em 1971.
Mas o primeiro memristor prático só foi construído em 2005, nos laboratórios da HP, e os cientistas conseguiram entender realmente seu funcionamento apenas no ano passado:
Também no ano passado, a IBM apresentou seus primeiros processadores cognitivos, mas trata-se de uma arquitetura que ainda não tira proveito dos memristores.
O primeiro processador realmente baseado em memristores foi construído por Robinson Pino e seus colegas da pouco conhecida Universidade de Boise, nos Estados Unidos:
Bibliografia:

An Electronic Version of Pavlov's Dog
Martin Ziegler, Rohit Soni, Timo Patelczyk, Marina Ignatov, Thorsten Bartsch, Paul Meuffels, Hermann Kohlstedt
Advanced Functional Materials
Vol.: Early View
DOI: 10.1002/adfm.201200244